308

Depois de quase enlouquecer a manhã toda – a cabeça era um heliporto – estou mais calmo. Ví algumas flores cor-de-rosa (acho que eram beijos) e apesar da ausência de pássaros, pareço ouví-los. Existe no mundo uma certa mágica que produz calma, que pacifica e apazigua os tortos e os aflitos e vem com lufadas de vento que movem as folhas. Quando o vento me atravessa como agora, quando sinto seu frio, sorrio e não me lembro do mundo. Sou olhos, sou nariz e ouvidos.

Agora apenas amo e estou só e salvo. Nenhum incômodo, nenhuma dor em meu peito – os helicópteros já se foram. Quando eu me levantar dessa casa, desse quarto aberto, do meu lar por quinze minutos e caminhar até a árvore mais à frente, passar entre os anjos pelados e descer os poucos degraus até a calçada, alí me encontrará o mundo e eu menearei a cabeça com carinho e respeito, continuarei andando e serei melhor do que antes. Mas pior que agora, porque o mundo, lá no fundo, tem gosto de folhas secas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s