A humildade está nas pedras do cascalho

“A humildade está nas pedras do cascalho”. Sobre elas a alegria. A sombra do barranco úmido, manchado de verde – laivos de lodo -, o baque duro das ferraduras na terra: sofreria se não fossem pedras, a humildade contrita. O cavalo não sente a sela, e menos o chão; sente a subida e a sede, sabe-se lá o que sente…

Livre o alto da serra. pra qualquer lado se vai o chão igual, o mato, lugar para descansar as ferraduras no macio; os dois na beira do córrego frio, faceiro – o outro afiando um toco. Vai-se longe o morro, o mato fundo no fundo; o campo vai mais, desce e sobe de novo. Vale atrás de vale, o pequeno de cada pedregulho, o verde de cada folha. Se o cavalo soubesse, não usava mais sela e ferradura, não carregava nas costas. Tem tudo porque não quer nada: estômago pequeno demais pro pasto imenso e ferro pra pisar nas pedras. Bom é só ver o que se come, comer o que se vê. Bom é outra coisa, não ver o cascalho infinito em que pisa, pisar cego no que come: bom é outra coisa… rolar na campina, mijar sobre o vasto lá embaixo, estradas dissolvidas em distância, minúsculas casas e tanto mato. Bom é…

A companhia é fácil, cheira a couro velho, suor bruto e seco. Cheira brisa, musgo molhado e folhas secas – o vazio em volta é que ajunta um ao outro e cresce a presença miúda – cada um puxando uma solidão larga pelo cabresto, que bufa e incomoda o silêncio grave da nuvem, da sombra que vem lenta topo a topo, corta e range nos arreios.

Longe de qualquer destino se vê o longe: o destino é a distância, é voltar por outro lado ao começo, voltar pra casa a galope por diverso caminho, largo quanto o que se pode ver e rápido de se deixar pra trás. O irmão que dispara ao lado – do outro lado – lá embaixo se encontra na curva do rio onde começa a corredeira e a água se alarga espremida entre as pedras grandes. “A humildade está nas pedras do cascalho” é ele quem diz: diz muito em seu pouco falar. Os cavalos em parelha acertam passo.

Estradinha velha de bandeirantes que desce a serra por esse lado de lá: a enxurrada segue junto, mostrando o caminho no escuro de nuvens negras. Está nos pingos e nas folhas, folhinhas que os aparam; está nos ossos com frio, nos dentes batendo: em cada pequena pequenez no meio de todo esse imenso. Em cada passinho de percorrer a infinita distância.

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