Oriente (fragmento)

Eis que se aproximava o fim da travessia e o Oriente era ainda mais insólito, virado do avesso ao sol nascente. O Oriente era tudo o que não se pode ser, montado em seus bizarros elefantes.

 

Que chapéus improváveis! E que sol avermelhado esse que nasce no Oriente! As nuvens de fumo, em cores tão equivocadas a filtrar a luz oriental, empesteiam com perfume alucinado a atmosfera carregada do Oriente – suas abóbadas douradas, seus sábios macacos, suas altíssimas torres.

Tudo acaba onde começa: tudo acaba no Oriente e alí eu era outro. Era uma gueixa apesar do pênis, uma dançarina apesar da barba. Eu era sóbrio no Oriente onde tudo inebria.

Nada resta de mim, Oriental. Meu nome se perdeu ao longo do caminho, meu rosto se afundou nalgum pantano, em qualquer pagode sublimou-se meu corpo e meus pés, esquecidos dentro dos sapatos, numa casa de ópio – nessas vive o verdadeiro Oriente, lascivo e violento, que me assaltou.

Viajava com meu criado e usava polainas que ele, seus olhos velhacos, teimava em não entender. Mostrava-ve como não cozinhar nos dias quentes, a não me afogar nos dias de chuva, um metro de água a cobrir a terra e serpentes por toda parte. Não me lembro seu nome. Já naqueles dias não me lembrava, a observar seu rosto silenciose, sentados no centro do círculo de fogo que se fazia para repelir os tigres e milhares de olhos malévolos que espreitavam salivando na selva escura. Respirava eu como um enterrado vivo nessas noites febris e ele, impostor, me contava histórias fantásticas em sua língua incompreensível. E me ouvia atento falar dos meus dias; antes do chamado irredutível do Oriente. De minha vida bêbada, de meus amores reais como o chapéu que cobria seus olhosdurante o sono. Dormia constantemente, o meu criado, pachorrento e satisfeito na nuca de seu elefante enquanto eu apenas suava cruzando o insone Oriente.

As mulheres no Oriente são répteis e eu, a despeito dos conselhos do charlatão, sucumbi inúmeras vezes aos seu lúbricos venenos; encantei-me de seus corpos elásticos, suas pupilas verticais, olhos amarelos.

O fim da travessia se aproximava. O sol nascia e a neblina suspendia aquelas rochas cobertas de algas e limo a flutuarem sobre o mar. As aves do Oriente, que grasnam como as do mundo, irritadas com a lentidão do sol gordo e encharcadado e eu, funâmbulo, a tropeçar no encalço de meu impostor que sacolejava  montado em seu elefante: o sorriso promíscuo, a pança imoral.

Há piratas no Oriente e se amontoam por todas as praias. Encharcam-se de aguardente, os fantasmas, e se recolhem aos seus lugubresjuncos, rarefeitos na névoa. Os piratas – suas preciosas escravas – exalam fedor de maldade: bestas de olhos cruéis com quem, dizia o falastrão que cruzara em outros tempos aqueles mares malignos, devia ter cuidado. Nesses tempos, nas profundezas do Oriente, os mapas são tão inúteis quanto os dentes de ouro que com tanta perícia foram arrancados à cabeça decepada de meu fiel criado. Em meio às gargalhadas banguelas, às ralas e fétidas barbas, eu tentava recobrar o controle, a consciência há muito perdida. O passado turvo, o presente tornado em distante delírio pelo funesto Oriente já não me pertencia e meu rastro se apagara. Já não me tinha a que me pudesse agarrar no último estertor. O sol refulgia no Oriente.

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