BDN 1

Teremos, quando, o direito de não sentir? De fruir o vazio, o pequeno? Aobservação fortuita de pequenos reflexos, gotas, harmonias geométricas, nuvens e sombras será um dia capaz de nos fazer plenos como o peso que nos viciamos em acrescentar à alma, a energia que desperdiçamos em tantas minúcias, em composições e estéticas, no esforço de distanciá-las do encaixe natural e dessa harmonia pura que insistimos em chamar de “caos” – patética justificativa para a nossa pretensão de nos tornarmos deuses ordenadores?

“Obrigado”
“Tenha um bom dia”

Diz o recibo de pagamento emitido por computador, as aspas explicitando a artificialidade, até um certo sarcasmo: talvez seja essa a nossa última esperança, a existência desses bufos, esses pícaros presentes em todo e qualquer setor de nossa vida (a vida em setores!), ainda que um mínimo de senso comum demonstrasse que, eliminado esse inócuo cumprimento, a cada seis ou sete recibos emitidos economizar-se-iam uns vinte centímetros de papel. Tentam humanizar a máquina financeira? Imaginam que eu sentirei mais leve o peso de deixar, em forma dessa taxa absurda, que um robô sem coração, fome ou angústia engula quarenta e quatro doses de cachaça que eu poderia dar ao mendigo ali da esquina (confidenciou-me: não anda tendo bons dias… sobra papel e comida, falta pinga)?

Teria a máquina a decência de dizer-lhe que seu bom dia acaba de ser engolido por ela, que de dias só conhece a representação numérica?

Explicaria a ele que escolho, em prejuízo de seu bem-estar, pagar por um monte de papel desperdiçado na esperança de que, caso outra máquina reconheça como válidos os rabiscos que eu fizer, me seja outorgado o direito de usufruir dezesseis horas boas o suficiente para que eu não queira, nas outras oito de cada dia, engolir quarenta e quatro doses de cachaça?

Digo a ele: “desculpe, meu amigo, mas a minha chance de aproveitar dias melhores depende da sua cordial aceitação de mais um dia miserável. Caso você, compreensivo que é, tenha a bondade de me conceder essa chancezinha, tenha a certeza que, chegando a mim os meus bons dias, farei o que estiver ao meu alcance para te proporcionar agrdável inundação dos seus, miseráveis, em pinga da melhor qualidade.”

Enquanto me afasto, penso ouvi-lo dizer, com a dificuldade de quem não está acostumado a tais difíceis leituras:

“Obrigado”
“Tenha um bom dia”
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