Estranhamente, a porta está destrancada

Estranhamente, a porta está destrancada. Nenhum carro na garagem, nenhum sapato na entrada, nenhuma luz acesa ou janela aberta. A oferta de hospedagem feita pelos moradores da casa em outra noite como essa, há muito tempo, com certeza não previa essa invasão, mas não há alternativa: o terror se aproxima.

Em tudo essa noite parece exatamente igual à outra. A mesma lua minguante paira no mesmo ponto do céu sem nuvens, a brisa sutil que sopra encosta acima, vinda do riacho que delimita o terreno em sua parte mais baixa, atrás da casa. O termômetro pendurado ao lado da porta marca os mesmos 18 graus. Noite pacífica no subúrbio, sem nenhum elemento que dê pistas sobre o terror que se aproxima e não deixa outra escolha senão entrar na casa vazia.

Atrás da porta fechada, a sala escura traz uma improvável familiaridade que aos poucos dissolve o medo do que está lá fora. A lembrança de tantos detalhes de um lugar visitado apenas uma vez ­ em uma noite igual, mas distante no tempo e cheia de pessoas, música e desordem ­ parece impossível, mas vem acompanhada de espectros da festa, fragmentos de diálogos e rostos, risadas cruéis de crianças vencedoras em jogos cujas regras apenas elas conheciam. Espectros que traçam os contornos de tantos detalhes físicos que tornam o lugar reconhecível mesmo às escuras, tanto tempo depois. Os cômodos parecem improvisados, utilizados para fins diferentes de seu propósito original, e assim pareciam os ocupantes da casa naquela ocasião: Adultos, jovens, velhos e crianças, um pequeno punhado deles, que pareciam ter decidido arbitrariamente os papéis que iriam exercer naquela estranha família. Não era possível para um estranho diferenciar com precisão os moradores dos visitantes, habituais ou não. Nem mesmo o terno espectro da amiga, que se move agora em direção a um quarto que aparenta ter sido projetado como uma antessala entre a cozinha e a sala de estar, se deixa definir como alguém que vive ali ou apenas visita.

Em um dos cantos desse quarto/sala há uma cama um pouco mais larga que uma de solteiro, coberta por um dossel cor-de-rosa. Sobre o tapete que se estende da beira da cama até o outro lado do cômodo jazem diversas almofadas, edredons e roupas espalhadas. O outro lado do cômodo, onde fica a porta, é ocupado por um sofá e outras mobílias típicas de uma sala de descanso. Parece o refúgio perfeito para aguardar o amanhecer, alimentar a vã esperança de que o terror que ficou do lado de fora se dissolva à luz do sol, e deixar o sono, que entra pesado pelos pulmões desde que a porta da frente se fechou, tomar conta de tudo.

Ainda é noite quando as vozes familiares do animado grupo de moradores, retornando contentes talvez de uma festa semelhante àquela que aconteceu aqui anos atrás, começam a preencher a casa, acompanhando cada uma das luzes que se acendem. Comentam os acontecimentos de poucas horas atrás, riem e trocam gozações, deixam casacos, bolsas, sapatos espalhados pelos móveis. Restaura-se o mesmo ambiente alegre e confuso da antiga festa e seu dia seguinte, despertando nesse mesmo cômodo. A amiga, que horas antes era apenas um espectro de memória guiando o caminho até a segurança, agora acorda a pessoa deitada no sofá, muito menos surpresa de vê-la ali do que preocupada com o sangue que escorre de sua boca.

Ela chama uma mulher de meia idade e duas das crianças para, enquanto ouvem um relato confuso sobre o terror e a sorte de encontrar a porta destrancada, ajudarem a recolher os cacos de dentes que caem daquela boca ensanguentada e ajeitar a cama para que possa repousar e estancar o sangue. Não se sabe o que causou esse desastre dentário, ou se isso tem alguma relação com o terror que caminhava pela estrada, mas não há remédio: os dentes se quebram pouco a pouco, até não sobrar nenhum inteiro, e os cacos ferem a boca até não restar nada além do gosto de sangue.

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