Vestíbulo

Havia exatamente dezessete olhos na sala obscura.
espera-se que os olhos venham em pares – até mesmo os caolhos possuem dois -, mas eu não conseguia encontrar o companheiro daquele que me fitava. Tinha a íris quase amarela e a pupila muito pequena, me fuzilava com tamanha agudez que tornava impossível distinguir o que o continha.

Um olho, apenas um, pequeno e frio, que me enxergava através de alguma inominável profundeza, da escuridão faminta. Os outros eram pares e possuíam rostos que esperavam resignados por algo. Uns perdidos, mortos; outros faíscavam e mesmo esses diabólicos olhos se abaixavam em humilde reverência ao que estava prestes a se revelar do outro lado da porta.

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O caminho do ébrio é largo. Porém nunca o suficiente.

É preciso ter cuidado ao atravessar o viaduto, manter o foco na calçada que se estreita enquanto avança: O pensamento quer fugir, voltar à festa e se aninhar debaixo da saia daquela moça. Mas devemos manter a concentração; lembrar a todo instante da infinidade de desgraças que podem acontecer a um bêbado num viaduto. Sem levar em conta os assaltos, uma vez que não possuímos nada que valha a pena ser roubado; ou a óbvia morte por atropelamento – o que não seria nenhuma desgraça -, o grande perigo é a queda. É cansar do viaduto e descer dele no lugar errado. Imagine se, por qualquer infortúnio, nos deixamos sucumbir ao medo dessas altas e amarelas luzes ou se, distraídos pela lembrança de alguns beijos doces, acabamos por adormecer recostados na mureta? E há ainda o risco de nos perdermos de nós mesmos ao longo da interminável distância entre uma e outra extremidade. Nos vemos afastados à frente e procuramos acelerar o passo. Todavia, andando mais rápido, o caminho se alonga em curvas absolutamente desnecessárias. O melhor é parar, recuperar o fôlego e gritar que nos esperemos.

Não é possível ver o fim do viaduto, mas sentimos que ele está próximo.

(lápide)

Música lá embaixo – estranha à abertura desses arcos todos – e uma lâmpada disfarçada de lua: cheiro de novidade que chega de ônibus porque não venta…

cinco, dez minutos de saudade e aqui parece em casa – esse lugar estranho, esse miasma querendo ser brisa: a saudade é o lar do solitário. dez, quinze minutos dela e se está de volta, horas de ônibus daqui… e os arcos foram junto, os tambores – ela não. ela, quando volta, traz consigo o novo e manda embora saudade e casa, velhas.

Esses arcos são mais velhos do que parecem, ou seria o contrário? Velho sou eu, de invertida saudade do novo. Velha é essa fila de ônibus que passou; e já passou. O lixo é velho. A Lua, não em tanta quantidade…

O cheiro desse lugar é velho – que nem o dum do batuque, lá embaixo – refaz meu caminho e desce no mesmo ponto – viaja seis horas a cada dez minutos de saudade, façamos a conta: seis horas vezes nove vezes dez minutos dá um dia e meio de saudade sentida em noventa minutos de falta… é por isso que esses arcos são tão velhos e essas três luas, que juntas não valem uma, têm uma luz que parece vir do futuro, do oposto da saudade: quando eu alcançar seu tempo, saudoso de casa, estarei em casa.

A humildade está nas pedras do cascalho

“A humildade está nas pedras do cascalho”. Sobre elas a alegria. A sombra do barranco úmido, manchado de verde – laivos de lodo -, o baque duro das ferraduras na terra: sofreria se não fossem pedras, a humildade contrita. O cavalo não sente a sela, e menos o chão; sente a subida e a sede, sabe-se lá o que sente…

Livre o alto da serra. pra qualquer lado se vai o chão igual, o mato, lugar para descansar as ferraduras no macio; os dois na beira do córrego frio, faceiro – o outro afiando um toco. Vai-se longe o morro, o mato fundo no fundo; o campo vai mais, desce e sobe de novo. Vale atrás de vale, o pequeno de cada pedregulho, o verde de cada folha. Se o cavalo soubesse, não usava mais sela e ferradura, não carregava nas costas. Tem tudo porque não quer nada: estômago pequeno demais pro pasto imenso e ferro pra pisar nas pedras. Bom é só ver o que se come, comer o que se vê. Bom é outra coisa, não ver o cascalho infinito em que pisa, pisar cego no que come: bom é outra coisa… rolar na campina, mijar sobre o vasto lá embaixo, estradas dissolvidas em distância, minúsculas casas e tanto mato. Bom é…

A companhia é fácil, cheira a couro velho, suor bruto e seco. Cheira brisa, musgo molhado e folhas secas – o vazio em volta é que ajunta um ao outro e cresce a presença miúda – cada um puxando uma solidão larga pelo cabresto, que bufa e incomoda o silêncio grave da nuvem, da sombra que vem lenta topo a topo, corta e range nos arreios.

Longe de qualquer destino se vê o longe: o destino é a distância, é voltar por outro lado ao começo, voltar pra casa a galope por diverso caminho, largo quanto o que se pode ver e rápido de se deixar pra trás. O irmão que dispara ao lado – do outro lado – lá embaixo se encontra na curva do rio onde começa a corredeira e a água se alarga espremida entre as pedras grandes. “A humildade está nas pedras do cascalho” é ele quem diz: diz muito em seu pouco falar. Os cavalos em parelha acertam passo.

Estradinha velha de bandeirantes que desce a serra por esse lado de lá: a enxurrada segue junto, mostrando o caminho no escuro de nuvens negras. Está nos pingos e nas folhas, folhinhas que os aparam; está nos ossos com frio, nos dentes batendo: em cada pequena pequenez no meio de todo esse imenso. Em cada passinho de percorrer a infinita distância.

Peixe de Rio Bravo


“…e cinco de bitola!” o outro comparava com a boca da garrafa, velhaco. Duas ou três coincidências pra lembrar que isso não é sonho: O barulho da moto e a lâmpada falhando, o fundo do copo (a bitola do fundo) que se encaixa com o buraco na mesa e… Tá certo, tudo certo aqui na ilha, ouvindo tudo e respirando como se deve; nenhum puto no bolso ou na mesa para encher o saco. Se tivesse o telefone, ligava. disse a ele num ataque de romantismo; assunto recorrente a quase um mês, esse. E outros: o pessoal acredita que a prática leva à perfeição e eu achava que perfeição é quando não precisa praticar. Como vômito – nunca ouvi falar de vômito imperfeito – ou chorar; respirar não, que é difícil e demanda treino. Já dizia aquele outro, que se esquecia do primeiro fôlego de manhã cedo. Onde será que ela está? é a pergunta, a troco de nada… se tivesse o telefone, ligava: é só curiosidade, que mal tem? Muita curiosidade… Aqueles olhos de novidade! Tudo tão bom, se fosse. Mas não é? É. Tudo certo… é todo curiosidade, um gostar sem prática. Sem ficar pensando muito em como deveria ser, sem muito querer que fosse, que nem coisa nova de que se gosta: lembrava do dia em que vi o azul; da cachaça nova do Giovane – a Anne, o copim e a rede, uns tiros de espingarda para desanuviar, o frango caipira. O tempo lento do mato… tempo sem tédio. Não como aqui, onde os dias lentos são os que demoram a passar. Acho que nunca aprendi o passo do tempo nesse lugar: ele pula e pára, pula e pára. Pára e pára e pula.

“…pra matar um cara, pô!” Ao que parece, tem algo errado com o Brasil. “Deus é tão bom, cara…” o errado é ele, bandido. hoje em dia nêgo trafica armas no boteco. “Tá tudo de pernas pro ar.” na China do Mao também estava assim – as crianças levando os velhos na coleira, e daí? Ela é que não acreditou que eu fosse àquela aula. “… e eu com arma no carro!” o bandido. Interferindo na linha de raciocínio. Linha de pescar raciocínio, a bem dizer: cachaça é a isca… Em todo rio, em cada pedaço do rio, tem um peixe que manda mais.

Ela é o peixe do meu. E pescar… pescar exige silêncio e paciência

Pavor 2

Medo. Como pluma que cai e não se pega, mas é em tentar pegar que não se pode. Digo com a autoridade de um exímio pegador de plumas, penas e afins: outros tempos, fato, mas pegava. Só deixar a mão parada que ela vem certinho… Morria de medo era da faca – da ponta -, pavor mesmo. Não do corte que ela faz, do furo ou do sangue; disso nunca houve medo. O horror é da ponta, da lâmina e do que ela pode fazer além do furo. Terror do brilho e da finura do aço.
Por isso a faca é preta, por isso nem penso enquanto ela entra fácil entre costelas. Por isso não olho enquanto limpo o sangue gorduroso com dedos nus: o Pavor não é do tato, é de ver. Não é do grito, do cheiro de merda ou da poça vermelha. Tudo isso fica morto no pé da escada da passarela vazia… Medo disso pra quê?

Noite Calma

Reginaldo matando a bola branca, sozinho no alpendre largo do boteco, me viu chegar tiritando de frio. Abri o casaco, tirei as luvas e ele com aquele sorriso:  -Quer perder uma?

Bebi uma meiota com ele, jogamos em meio a uma nuvem de aleluias embaixo da lâmpada. Ele tranquilo, acostumado que está a jogar sozinho antes de fechar e dormir. Suicidei várias vezes, ousando jogadas. A nêga – a quinta – decidida no ás: lá não se canta a caçapa e ele quase ganhou, mas matei cantado. duas tabelas, no meio.

Foi pegar piúcas, eu um palheiro e acendí, depois, um foguinho enquanto ele trazia umas asinhas de frango. Mais pinga não, que ele tomara o remédio… muitos grilos e poucos sapos é sinal de seca, ainda mais com esse absurdo de estrelas: só então ví que ele tinha jogado de luvas, safado.

Deu a hora. Acertamos a conta da semana e ele, rindo, disse pra pagar na semana que vem. Foi dormir, efeito do remédio. Apaguei as luzes, fechei com cuidado a porta lateral toda velha e empenada e saí na noite clara e fria. Vagalumes e estrelas sobrando, o silêncio dos grilos. Meu coração saltava no peito, alegria besta: às quatro da manhã, bêbado e só naquela noite linda, sem lua, vi a velha casa do Geraldo, a fachada alta e sua antiga fundação de pedra; a porta no meio, no topo de uma grande escada em ‘L’, três janelões de cada lado. Tudo iluminado pela luz difusa da noite sem lua parece como antes, há mais de dez anos: Geraldo, ainda vivo, me explicava que a data de mil novecentos e quatorze, num azulejo sobre a porta, era da primeira reforma e que a casa fora construida por escravos… Depois de tanto tempo ela parece voltar àqueles anos de infância: a queijeira de um lado, o paiol e o curral do outro. E o medo que eu sentia, de tremer mesmo, do velho e simpático Geraldo.